Pensar a arte como ferramenta de reeducação social - Peça teatral 'Meninos de rua ou meninos na rua'


Uma vez, alguém segredou-me que casa representa mais do que paredes e mobílias. Devo admitir que concordei de imediato e acrescentei que é necessário que as pessoas transformem as suas casas em lares.

Dessa forma, passamos a pensar a “casa” para além do seu aspeto material.

Para muitas pessoas, casa representa um lugar de aconchego, partilha e esperança, sobretudo quando, do lado de fora, só há espinhos, desalento e confusão.

Voltar ou estar em casa é regressar às origens, abrir-se para o que temos de mais genuíno: a família. É quase um ritual.

No entanto, quando olhamos mais profundamente, tudo o que já ouvimos sobre casa (lar), esperança e proteção pode desmoronar bem diante dos nossos olhos. É sobre essa realidade, muitas vezes mascarada, que o grupo teatral Tetembwa I Muika se debruçou. Por meio da arte da representação, assumiu o seu papel como educador social e fez chegar ao público uma mensagem sobre o que realmente importa.

Na LAASP – Ex-Liga Africana, o grupo, situado num bairro popular e liderado por criadores de raiz, trouxe para o palco uma tradução sensível da cidade de Luanda. Foram os muitos “hotéis ao ar livre” que tocaram profundamente estes artistas e os chamaram à ação.

“Meninos de rua ou meninos na rua?”

Berrada em voz baixa, a pergunta ecoava no ar. Todos queriam compreender, olhar de perto o que esses tradutores de cultura traziam na mala.

Com certa tranquilidade, amigos, famílias e simpatizantes das artes aguardavam, com apreensão, a entrada do grupo em palco. Corações acelerados, olhos estendidos para além da cortina, tentando adivinhar como tudo iria começar. 

E, quanto ao início, a equipa técnica cuidou para que o público se sentisse valorizado. Ainda que tropeçando em alguns momentos importantes do espetáculo, exaltou a Deus com músicas que exibiam os Seus feitos, deixando clara a base religiosa do grupo.

O evento contou com a participação de artistas que mereceram a nossa atenção e que entretiveram o público até à entrada da maior atração da noite.

Entrava em palco, já carregado de entusiasmo, responsabilidade e compromisso com o público e com a sociedade em geral, o grupo Tetembwa I Muika. Para os atores, era essencial que a mensagem fosse transmitida e que o recado chegasse também aos que ficaram em casa, sem perder a estética própria da arte da representação.

Em cena, estes jovens artistas mostraram que cuidar materialmente da família não é tarefa fácil e que os pais devem estar atentos a essa responsabilidade. No entanto, é desrespeitoso para com Deus e para com os filhos negligenciar o cuidado emocional e espiritual da família, trocando o diálogo por diversões vazias, como se os bens materiais pudessem suprir a atenção de um pai ou de uma mãe.

Com esta peça, o grupo propôs à sociedade uma nova forma de olhar para as nossas casas: transformá-las em lares, espaços verdadeiramente sólidos de confraternização, criação e educação.

A peça evidenciou que, quando os pais não cuidam, alguém cuidará — e esse alguém pode ser a rua, onde costumes e hábitos podem ser destruídos, levando jovens socialmente incluídos à exclusão.

“Às vezes, é só uma questão de calma.”

Em muitos momentos, o grupo Tetembwa I Muika levou o público a sentir inúmeras sensações: lamentar, rir e refletir abertamente sobre a nossa participação em tudo isso.

Deste dia ficaram as lições, a nostalgia e o compromisso de sermos agentes de união, e não de desunião.

“Com o teatro, tragamos almas para Cristo.”

Tetembwa I Muika, muito obrigado.


#Revistaculturalmenterica

#Creditos das imagens' Romário 


As palavras na voz de quem escreveu - Lorokaki


Na nota "Primeiras impressões" de Natalie Goldberg, o elemento básico da prática de escrever é o exercício com o tempo, cada um é livre de estabelecer o seu limite.

A expressão limite pode suscitar seriedade e comprometimento, a conversa fora de fronteiras que nós mantivemos com o artista Lorokaki, evidenciou o seu empenho com a escrita livre, dar ao papel as lascas coloridas da sua consciência como afirma Natalie Goldberg na nota citada acima. 

Está conversa puramente rica em termos de referências, traços culturais e amostras de como se constrói um artista. Levou-nos a crer que Lorokaki está muito além de um simples autor...

Com palavras regionais como "Gororoba, grudje", o artista convidado para está conversa fala sobre as coisas que o rodeiam. Residente na Bahia-Salvador desde sempre, é autor do livro "De colher em colher", uma obra literária que reune setenta poemas que confrontam a vida e as suas diferentes questões numa linguagem que só é visível quando enxergada como "poesia".

Entrevista com o “camisa 10” da poesia


“Ninguém é igual a mim, mas chego a ser parecido com todo mundo”

Assim vivem os artistas dentro da arte.

É incrível como um ser que sorri por motivos diferentes da maioria, dança num apupú artístico quando pega a caneta, pode ver o mesmo por do sol que um civil (não artista) todos os dias, na verdade, do que são feito os artistas? Como olhar para poesia e pensar nela como a sinopse da vida? É aqui onde tudo começa...

Luanda, 29 de Abril, uma data que Maria Armando Artur e António José Gomes tiveram nos seus braços o jovem artista que inventaria o kyassambismo, “numa época não tão distante do pós independência”. 

Fernando Artur gomes, responde pelo nome de Fernando Kyassamba vulgo camisa 10 da poesia, é poeta e artista como tal. Altualmente residente no Cazenga na província de Luanda.

Kyambassa teve uma inserção no mundo artitistico litério razoável, considera a sua experiência moderada e durante a conversa que teve conosco deu nota positiva a sua trajectória artística. Mas como dizem por aí, as preliminares representam o sucesso da ação praticada antes do acto, então, seguimos adiante e tentamos entender Fernando dentro da sua arte.

SOU UM ARTISTA PROPRIAMENTE DITO, E FAÇO ARTE DE FORMA PROFISSIONAL


Preâmbulo

ROC: Quando é que o Fernando se assume como poeta?

KYASSAMBA: Eu me assumo como poeta já algum tempo, mas foi em 2013 pra 14 que começo a ver que a literatura vai muito além de esperar pelos eventos que dão primazia a arte poética.

Por exemplo: Poesias a céu aberto, artes ao vivo e muitas outras actividades. “Na época”. 

Comecei a ver a poesia com outros olhos, comecei a pisar em palcos que antes via de longe e a sentir o feedback do público. Passei a sentir que de facto eu já não era um mero artista, as responsabilidades tinham aumentado. 

Mas em virtude de algumas exigências acadêmicas tive de dar uma pausa.

ROC: como era a poesia de Fernando Kyassamba nesta época, nos conta sobre o amadurecimento da sua escrita?

A escrita não é só tirar as ideias da mente pra o papel

KYASSAMBA: Nos finais de 2013-14, a minha poética, não era propriamente a poética que eu chamo hoje.

Obviamente que estávamos a começar, à minha poética naquela altura era muito mais vaga, confesso, eu tinha alguns itens. E sempre gostei de fazer investigações, saber o que é um texto literário, o que é poesia, mas não é era bem propriamente a poética que eu queria alcançar. A fera poética que hoje chamo Kyassambismo teve de ser desenvolvida.

Então, de lá pra cá desenvolveu bastante tanto é que a partir de 2017 comecei a sentir a necessidade de publicar os meus textos, não só nas redes sociais, mas também em antologias e coletâneas nacionais e internacionais. 

ROC: Quais os elementos contribuíram para o amadurecimento da sua escrita, pra atingir o tão estimado kyassambismo?

KYASSAMBA: O que esteve na base do meu amadurecimento, foram elementos simples. Investigações e contacto direto com outros artistas e ter ousadia de sempre ler. 

Quando nos paramos para redigir um texto literário, um poema ou um conto é muito consequência também das nossas leituras, mas eu preso muito o meu contanto com a sociedade, são os mujimbos de daqui e acolá que nos levam a escrever textos dignos de realce.

ROC: Quais os são os escritores que o Fernando olha como influenciadores da sua escrita?

Kyassamba: Consequentemente quando lemos nos identificamos com um ou outro escritor. Eu sempre tive o cuidado de não me manter preso a uma linhagem só.

Claro que tenho alguns escritores como referências a citar: José Luís Mendonça, gosto do jeito que ele trabalha as palavras, gosto da poética de Agostinho Neto, ele trás consigo a nossa identidade, João Tala, José Eduardo Água Lusa. A muitos escritores que influenciaram de modo especial a cada modalidade ou cada gênero que faço.

ROC: Ao ter identificado esses escritores, nos sentimos obrigados a fazer a seguinte questão. O que caracteriza a nossa identidade dentro da escrita?

KYASSAMBA: Eu tenho dito assim de forma, mas minha que literatura é a arte de trabalhar as palavras, é a arte que tem a palavra como matéria prima. Só o jeito quando a gente escreve o jeito que a gente fala é uma identidade, logo, a gente pode passar isso quando formos redigir um texto.

O jeito que você cria os ambientes as historia todo pacote envolvido na desenvoltura do texto, vai muito trazer a nossa cultura.

ROC: Já agora, quer nos contar qual é percepção que tem sobre o que é cultura?

KYASSAMBA: Pra mim cultura é um conjunto de vivências. E elas são feitas constantemente e de forma natural.

ROC: E como é que o Fernando reflete a nossa cultura nas suas escritas?

KYASSAMBA: Trazer a nossa cultura vai muito mais além do uso de termos propriamente nossos.  Eu pelo menos procuro falar de coisas que tem haver conosco. A título de exemplo, eu escrevi um texto em virtude da dificuldade da escassez de água potável, neste texto eu não usei somente as palavras típicas do angolano, o ambiente e os personagens são detalhes que qualquer pessoa em contacto com o texto saberia que isto é angola.


Desvios

 ROC: Falou-nos sobre os escritores e autores que muito influenciaram a sua escrita, queremos saber do Fernando, como tem visto o dialogo cultural existente entre a velha guarda e nova geração de autores e escritores?

Kyassamba: Eu fico muito divido a dar a minha opinião sobre essa questão, falo na primeira pessoa que tem alguns escritores da velha guarda que têm esse carinho com os jovens. Eu sou um seguidor de José Luís Mendonça e João Tala, eu sou seguidor deles e eu vejo, sinto a preocupação deles ainda com os jovens.

Mas são dos poucos, Na minha opinião!

Por conta da atenção dos mas velhos não ser assim tão ferrenha tem se notado  muita deturpação naquilo que é poesia propriamente dito. Se bem que defendo que toda arte deve ser revolucionada, mas revolução numa arte ou numa determinada coisa não pode fazer com que se perca a essência.  

Síntese

Actividades como as do movimento Lev’Art, levaram Fernando a conhecer muitas pessoas influentes no mundo artístico literário, o que resultou num aprendizado rico e muitas das coisas que sabe sobre poesia hoje também aprendeu lá e com muita dessas pessoas.

O que também o ajudou quando foi convidado a iniciar certos núcleos e grupos artísticos.

Mas foi no Nomad’Art que o camisa 10 se constrói como artista. Junto de amigos e outros artistas periféricos, num espaço para debater a arte e experimentar a poesia como ferramenta de afirmação e mudança.

Não se falava de

Fernando Kyassamba

sem falar de Nomad’Art

Também devemos ressaltar a pessoa de Iadiro Barroso e zoe Kifembi. Organizadores do orgasmo literário um projecto em que Fernando Kyassamba tornou-se lenda, afirmou durante a nossa entrevista.

Ouve falar pela primenra sobre as competições de poesias faladas e performances (slams), em 2017. Um pouco mais curioso do que hoje, nesta altura o inventor do Kiassambismo armadilhou a mente e a caneta, mas não participou, apenas assistia aprendendo com quem sabia fazer. Ele relembra que houve uma vez que tinha sido convidado não como concorrente, mas para um momento livre do evento (open Mic), e isso o marcou. Mas hoje, já em 2025 Fernando conta com, mas aparições em concursos de poesia do que em slams.

Tem participação em muitas antologias e coletâneas, mas ele destaca dentre as lançadas, TRANSLUCIDO, lançada no formato digital, A GENTE QUE CONHEÇO e CANDONGUEIRO. Essas obras deram ao camisa 10 uma visibilidade muito grande, de modo que que as pessoas passaram a olhar pra ele não apenas como declamador. A nível internacional se destaca ENTRE VERSOS CONTOS E PROSAS.

Fernado sempre sonhou se estrear como autor único no mercado literário com uma obra do gênero poesia.


Sugestão do autor:

Obras que tem como leituras obrigatórias

ENTRE O CAOS E FLOR- foi organizada por Irene Guerra;

A CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO


#Esperamos que está leitura tenha servido de inspiração para si, a guerra se ganha lutando, então, seja você o heroi da tua própria vida. 

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Poema de João Tala - A meio de carência

foto: Leitura do poema de João Tala em biblioteca

Ler um poema é como relaxar o corpo depois de um dia tenso, esgotante e com esperanças duvidosas. Quando beijamos o poema 'A meio da carência' do escritor angolano João Tala, sentimos mas do que arrepios, fomos forçados a dançar no ritmo do verso. 

Se ainda não teve a oportunidade de ler este escritor e autor angolano, está é a sua chance. Pega uma bebida fresca, encoste em algum lugar calmo e silêncioso e vibra com cada verso deste poema.

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VESTÍGIOS DO OFÍCIO - ENTREVISTA

 
Apresentação poética de Natasha Félix 

1 parte _ Passeio 

   Era 21 de 08 de 2024 – Mutamba. O relógio marcava 19 ou talvez 20h, já não lembro bem deste detalhe. Tínhamos terminado um (ensaio), os nossos corpos ainda em alerta, representavam o verdadeiro significado da poesia em movimento

     Gambiarras Sônicas – Naquela semana, entender o improviso como tecnologia ou um mecanismo a ser usado para que as coisas acontecessem independentemente das dificuldades impostas levou a poetisa brasileira a fazer dançar o poema junto dos jovens artistas angolanos. A presença da artista representou a verdadeira vontade de enfrentar novos desafios e foi um ponto de encontro para duas culturas que partilham semelhanças. 

Sobre está noite, Os vestígios continuam... 

IGRLuanda, este Instituto cheio de oportunidades foi o responsável pela presença da poetisa na terra do “SOMOS TODOS”. O passeio tinha ganhado outras proporções, Museu da antropologia, Igreja católica, sonangol. Andávamos em círculos à medida que soltávamos as palavras, “Nada igual!” Natasha em nenhum momento deixou que a conversa caísse no aborrecimento. 

“ELA SABE RESPONDER COMO ARTISTA”
 

A poetisa da periferia de santos tinha um sorriso clichê, mas, os olhos exibiam a vivacidade de um livro que tinha muito que contar... E assim fomos! 

Entre uma cerveja e outra a conversa alegremente se prolongou... 

  Pela segunda vez em Angola, Natasha, quiz provar a terra e adentrar na angolanidade que muito a apaixonou de longe, a sua relação com este paraíso lhe é cedida pela primeira enquanto ainda percorria o campos universitário, Brasil (estudante). Ampliar a sua visão sobre a terra, permitiu que esta artista conhecesse a atmosfera que a envolvia na altura, criar vínculos e entender que Angola não é só “KINAXIXI”. 


Preâmbulo 

ROC: Onde é que a Natasha nasceu? 

NATASHA: Eu nasci em Santos, no Morro de São Bento, é uma periferia no litoral de São Paulo.

Mas eu cresço no Canal 1, Sabóia... 

ROC: Mas quando é que sente a necessidade de transportar as suas vivências, as coisas que a deixavam desconfortáveis para o papel?  

NATASHA: Olha, a minha relação com o texto veio da lavandaria da minha avó, do Morro de são Bento, porque antes de eu ser alfabetizada, ela sentava comigo no fundo da casa, nessa lavandaria, e me ensinava a escrever meu nome. 

        E eu lembro da letra formando no papel. E isso é uma coisa muito interessante porque a gente só tem lembrança normalmente de quando a gente é alfabetizado.

“Você não tem muita memória de quando você não sabia escrever”. 

        Mas foi mesmo na infância, bem novinha, eu sempre quiz escrever!  Mas fazer sentido mesmo, tipo quero ser escritora, foi na adolescência. 

“Eu queria ser prosadora, eu queria ser romancista. E aí virei poeta!”

ROC: A Natasha acredita que existe alguma diferença entre escritor e poeta?  

NATASHA: Sim, Escritor e poeta é diferente. 

       Poeta pode ser escritor (a) e escritor (a) também pode ser poeta, mas quando é separar, o poeta ele é um estado no mundo.

       É um modo de vida muito específico.

       Não é uma mesma comunidade, o poeta tem uma relação com o mundo muito, mas de pele e carne.

“O poeta é um lugar”

 

ROC: Nos também compreendemos o poeta como um mecanismo que serve de ligação entre o espírito e a alma da pessoa. Mas nos queremos saber da Natasha. Sente que a poesia que faz é muito, mas física ou espiritual?

NATASHA: Olha, eu sou pessoa que está buscando uma espiritualidade a  pouco tempo, fui católica durante muitos anos, uma católica preguiçosa!. Eu nunca acreditei de fato sempre ficava parairando, e aí me afastei completamente do catolicismo mas, cultivo alguma coisa de reza , de oração muito por conta do respeito a minha avó, e da minha família. Mas é muito distanciado. 

E sim, a minha poesia ela é espiritual. 

        Pra mim a poesia é como um estado, né, como mundo, o poema como a materialização da poesia. O poema é escrito ou falado, a poesia é a maneira como você lida com a vida, poeticamente. 

       Então, ela tem uma carga espiritual muito grande, ela é ritualística. Quando você escreve, você está ritualizando também. 

ROC: Então, como você compreende o poema? 

NATASHA: Eu acabo entendendo o poema como um enigma, um segredo que a gente compartilha. 

ROC: Sabemos que no processo de escrita, todo corpo participa. No caso da Natasha, como funciona o seu processo de escrita? 

NATASHA: No meu caso, eu fico perseguindo imagens e o que elas podem contar pra mim. Quando eu sento para escrever ou vivo um processo de escrita de oficina que eu gosto muito de participar, eu gosto de pensar, mas do que o tema, como aquela imagem abraça de forma profunda o texto. 

     Vou dar um exemplo prático, A mucua! a imagem da mucua me pegou muito, eu fiquei encantada com a forma como ela muda a materialidade dela mesma, ou seja ela vira uma bela caipirinha e ao mesmo tempo é muito terrosa, ela é tipo uma raíz, ela é farelenta.  Eu olho pra isso, e falo, “CARAMBA!”. 


O PRIMEIRO SOM DO MUNDO 

DENTRO DA MUCUA 

MEU DESEJO PERVENTILA 

FIA PENTO 


ESFARELA AS MÃOS

POR ISSO FICA, 

TEM ZUNIDO BRAVO

NESSA VOZ ESCURA

 

COMO PODE UM ZUNIDO

CORRER SOLTO, ASSIM, OH!


FAZER ALGAZARRA, 

AGARRAR NA PELE


COMO PODE UM ZUNIDO

CORRER SOLTO, ASSIM, ÓH 


FAZER ALGAZARRA,

AGARRAR NA PELE. 


_ Desvios

ROC: Qual é o enquadramento que a Natasha faz da sensualidade, se vale a expressão “erotismo” dentro da sua escrita. Isso por conta de textos como “Higiene Intima” e do livro “Alicate”?

NATASHA: Sobre o erotismo, existe um lugar nos textos mas, eu tenho receio com as caixinhas,  eu odeio ser encaixotada. “Eu gosto de circular”. 

      Então, o erotismo ele é um tema, é uma dúvida pra mim, por que eu associei muito ele no Alicate a pulsão de morte, a uma relação com o macabro, a uma relação com a violência. No livro Alicate eles estão lá. O erotismo e a violência eles estão ligados. 

ROC: Mas quando tenta fazer esse enquadramento, é pensando na relação existente entre o prazer e a dor? 

NATASHA: Sim, no Alicate tem um lugar que era sobre nomear uma violência, “quando você está sendo manipulada”, como é que o jogo e a manipulação operam no corpo.

      Por exemplo no Alicate tem uma figura que é o J, e ele é um homem. É uma figura muito manipuladora, mas a narradora acha que ela tem algum poder diante do J. Então, existem uma disputa, mas quem perde é ela, porque ele é que tem o poder na mão. 

      Então, tem uma relação com o erótico, tem uma relação com uma castração, mas no Alicate tem um tratamento em relação a violência que é do prazer e dor  pensado numa perspectiva mas associada ao sadomasoquismo.

      O que eu tento fazer com o poema é que o J não vence no final, porque quem narra sou eu. Quem tem o poder é quem escreve.

ROC: Quando é que lança seu primeiro livro? E o que trilhou após esse feito é o que pensava para sua carreira?

NATASHA: Eu lancei o meu primeiro livro em 2018. Mas tudo que eu trilhei depois, não é o que eu pensei sobre a minha carreira. 

     Eu pensava, “Quero publicar um livro, pronto!, quero publicar dois livros, prontos!” Eu achava que era isso! 

     Mas não é! Eu comecei a oferecer oficinas, fazer performances, comecei a trabalhar com música, com exposições que tratam da palavra materializada no espaço positivo.

 “Comecei a trabalhar com muitas coisas!”

     Eu achei que ia publicar um livro e meia dúzia de gatos pingados iam ler. Só que o livro se espalhou! 


“E aí, esses cincos anos foi todo num fristaly!” 


ROC: Nos surpreende o facto de teres um livro que a nível comercial vendeu tão bem, não é algo que se regista com frequência. Então, na opinião da Natasha acha que existem algumas maneiras do poeta (escritor) ganhar dinheiro com poesia hoje?  

NATASHA: Assim, é um sistema muito complexo. Porque Depende de governo a governo, pra nós no Brasil, o governo Lula por exemplo, teve um “BUM!” nos editais. Eles são pingados, existem vários, mas também existem muitos artistas que não são contemplados. 

     É uma forma de acessibilizar, é. É melhor que nada. Tem muita gente que vive de edital.  

     Mas também existe um pacote que um escritor poder ter, que é: 

 _ O poeta – Escritor pode oferecer cursos, palestras, fazer leitura de originais, apresentações de performances e também pode fazer saraus. 

ROC: Depois desta resposta, pensamos em dar um salto na conversa porque nos queremos entender como a Natasha conhece Angola e a sua literatura?  

NATASHA: O meu interesse para com Angola é antigo. Tive um professor que dizia o seguinte: 

“Você não pode ter uma relação com a literatura angolana sem saber o contexto histórico”

      Depois fui atrás das aulas de Ondjaki, e fiquei alucinada! Eu fiquei muito apaixonada pela literatura angolana. 

“Foi a literatura que me deu a vontade de vir pra qui”. 

ROC: Quais foram os escritores que teve o prazer e a oportunidade de consumir enquanto ainda era estudante?

NATASHA: Quando estava cursando letras, nós tinhamos seis modelos de literatura africana. Eu fiz literatura angolana no primeiro ano da faculdade, e os autores que ressoam são: Agostinho Neto, Luandino Viera, Ondjaki, João Melo, etc. 

“Esses escritores me pegaram!” 

     E eu construí o meu imaginário sobre Luanda (Angola) a partir da literatura. 

Síntese 

     Daqui, ficaram as lembranças e os aprendizados. Natasha se provou ser uma artista de carne e osso, disposta  a dar o peito pela bala e ultrapassar a linha que o mundo defini como limite. “A sua arte não reconhece barreiras”. Como nós falamos aqui em Angola, “Ela tem muita pilha”.

      Para está artista, o encanto de Angola não se resume apenas na beleza histórica e literária. A gastronomia também desfilou na passarela dos gostos desta poeta. O funge de milho, bombó frito, muteta, elevaram a fasquia e tornaram essa passagem por Angola mais deliciosa. E pelas ruas sentiu a potência do franguite e outros. 

     Ficou a vontade por um Matabicho a moda angolana, mas tudo quanto são os vestígios do ofício, Natasha Félix vivênciou algo inédito nesta segunda vez.

Angola & Brasil, existem muitos pontos de contacto” 

Revista_culturalmente_rica 





VESTÍGIOS DO OFÍCIO – NA VOZ DE QUEM VIU E VIVEU.

Performance de Natasha Félix - IGR

Era 21 de 08 de 2024 – Mutamba. O relógio marcava 19 ou talvez 20h, já não lembro bem deste detalhe. Tínhamos terminado um (ensaio), os nossos corpos ainda em alerta, representavam o verdadeiro significado da poesia em movimento. 

Gambiarras Sônicas – Naquela semana, entender o improviso como a tecnologia ou um mecanismo a ser usado para que as coisas acontecessem independentemente das dificuldades impostas levou a poetisa brasileira a fazer dançar o poema junto dos jovens artistas angolanos. A presença da artista representou a verdadeira vontade de enfrentar novos desafios e foi um ponto de encontro para duas culturas que partilham semelhanças. 

Sobre está noite, Os vestígios continuam... 

IGR – Luanda, este Instituto cheio de oportunidades foi o responsável pela presença da poetisa na terra do “SOMOS TODOS”. O passeio tinha ganhado outras proporções, Museu da antropologia, Igreja católica, sonangol. Andávamos em círculos à medida que soltávamos as palavras, “Nada igual!” Natasha em nenhum momento deixou que a conversa caísse no aborrecimento. 

“ELA SABE RESPONDE COMO ARTISTA” 

A poetisa da periferia de santos tinha um sorriso clichê, mas, os olhos exibiam a vivacidade de um livro que tinha muito que contar... E assim fomos! 

  Pela segunda vez em Angola, Natasha, quis provar a terra e adentrar na angolanidade que muito a apaixonou de longe, a sua relação com este paraíso lhe é cedida pela primeira enquanto ainda percorria o campos universitário, Brasil (estudante). Ampliar a sua visão sobre a terra, permitiu que esta artista conhecesse atmosfera que a envolvia na altura, criar vínculos e entender que Angola não é só “KINAXIXI”, saltaram da na boca da artista nomes como... 

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Edição de Março / Estará disponível na segunda-feira 07 de Abril de 2024. 


2025 - CELEBRANDO AS NOVAS CONQUISTAS


     
Sejam todos muito bem-vindos ao ano de 2025! É com imensa alegria e gratidão que damos início a este novo ciclo, que se apresenta cheio de oportunidades e inspirações. 

       Olhando para 2024, podemos celebrar as conquistas que alcançamos juntos: crescemos em nossa jornada cultural, ampliamos nossa presença e fortalecemos nossa conexão com vocês, apaixonados pela arte e pela cultura.

       Este ano, nossa missão segue mais forte do que nunca! Preparamos para vocês uma programação repleta de novidades culturais e artísticas, com destaque para novos talentos, expressões inovadoras e colaborações enriquecedoras. Vamos continuar a explorar as diversas faces da arte, com foco em projetos locais e conteúdos exclusivos que vão despertar reflexões e promover o crescimento coletivo.

        A Óh Caxito segue como uma plataforma viva e pulsante da nossa cultura, e queremos que cada um de vocês se sinta parte desse movimento. Vamos fazer de 2025 um ano de ainda mais descobertas e celebrações!

Acompanhem-nos, o melhor está por vir!

Com carinho,

Equipe Óh Caxito 

Revista culturalmente rica... 

Despertar Literário: A História por Trás do Primeiro Livro de Graziela Gama


= Explorando os Labirintos da Narrativa em Seu primeiro Livro = 

   

"Uma história que primeiro foi escrita por lágrimas. Cada letra acompanhada de soluços e de uma única frase: Quando é que vai ficar tudo bem? Cada gargalhada era um grito de socorro, daqueles mais discretos que não esperamos que alguém perceba. Não gostaria, mas lembro até hoje de cada segundo em que tentava agarrar todo ar que a ansiedade tirava de mim aquele dia, tentei buscar esse fôlego em mais um texto, porém com as mãos trémulas até o teclado virou-se contra mim, então só me restava tentar gritar, mas gritar com aquela voz interior que até então não tinha ajudado muito".

(palavras da autora)...

BEM-VINDO A ÓH CAXITO


**Revista angolana de Arte e Cultura!**

Uma mulher rastafri...Num convívio só de mulheres. 














    É com grande entusiasmo que abrimos as portas para um universo vibrante, onde a criatividade e a expressão artística se entrelaçam.

Nesta jornada, convidamos você a explorar as nuances da arte em suas diversas formas, desde as pinceladas de um quadro até as notas de uma melodia envolvente.