Pensar a arte como ferramenta de reeducação social - Peça teatral 'Meninos de rua ou meninos na rua'


Uma vez, alguém segredou-me que casa representa mais do que paredes e mobílias. Devo admitir que concordei de imediato e acrescentei que é necessário que as pessoas transformem as suas casas em lares.

Dessa forma, passamos a pensar a “casa” para além do seu aspeto material.

Para muitas pessoas, casa representa um lugar de aconchego, partilha e esperança, sobretudo quando, do lado de fora, só há espinhos, desalento e confusão.

Voltar ou estar em casa é regressar às origens, abrir-se para o que temos de mais genuíno: a família. É quase um ritual.

No entanto, quando olhamos mais profundamente, tudo o que já ouvimos sobre casa (lar), esperança e proteção pode desmoronar bem diante dos nossos olhos. É sobre essa realidade, muitas vezes mascarada, que o grupo teatral Tetembwa I Muika se debruçou. Por meio da arte da representação, assumiu o seu papel como educador social e fez chegar ao público uma mensagem sobre o que realmente importa.

Na LAASP – Ex-Liga Africana, o grupo, situado num bairro popular e liderado por criadores de raiz, trouxe para o palco uma tradução sensível da cidade de Luanda. Foram os muitos “hotéis ao ar livre” que tocaram profundamente estes artistas e os chamaram à ação.

“Meninos de rua ou meninos na rua?”

Berrada em voz baixa, a pergunta ecoava no ar. Todos queriam compreender, olhar de perto o que esses tradutores de cultura traziam na mala.

Com certa tranquilidade, amigos, famílias e simpatizantes das artes aguardavam, com apreensão, a entrada do grupo em palco. Corações acelerados, olhos estendidos para além da cortina, tentando adivinhar como tudo iria começar. 

E, quanto ao início, a equipa técnica cuidou para que o público se sentisse valorizado. Ainda que tropeçando em alguns momentos importantes do espetáculo, exaltou a Deus com músicas que exibiam os Seus feitos, deixando clara a base religiosa do grupo.

O evento contou com a participação de artistas que mereceram a nossa atenção e que entretiveram o público até à entrada da maior atração da noite.

Entrava em palco, já carregado de entusiasmo, responsabilidade e compromisso com o público e com a sociedade em geral, o grupo Tetembwa I Muika. Para os atores, era essencial que a mensagem fosse transmitida e que o recado chegasse também aos que ficaram em casa, sem perder a estética própria da arte da representação.

Em cena, estes jovens artistas mostraram que cuidar materialmente da família não é tarefa fácil e que os pais devem estar atentos a essa responsabilidade. No entanto, é desrespeitoso para com Deus e para com os filhos negligenciar o cuidado emocional e espiritual da família, trocando o diálogo por diversões vazias, como se os bens materiais pudessem suprir a atenção de um pai ou de uma mãe.

Com esta peça, o grupo propôs à sociedade uma nova forma de olhar para as nossas casas: transformá-las em lares, espaços verdadeiramente sólidos de confraternização, criação e educação.

A peça evidenciou que, quando os pais não cuidam, alguém cuidará — e esse alguém pode ser a rua, onde costumes e hábitos podem ser destruídos, levando jovens socialmente incluídos à exclusão.

“Às vezes, é só uma questão de calma.”

Em muitos momentos, o grupo Tetembwa I Muika levou o público a sentir inúmeras sensações: lamentar, rir e refletir abertamente sobre a nossa participação em tudo isso.

Deste dia ficaram as lições, a nostalgia e o compromisso de sermos agentes de união, e não de desunião.

“Com o teatro, tragamos almas para Cristo.”

Tetembwa I Muika, muito obrigado.


#Revistaculturalmenterica

#Creditos das imagens' Romário 


As palavras na voz de quem escreveu - Lorokaki


Na nota "Primeiras impressões" de Natalie Goldberg, o elemento básico da prática de escrever é o exercício com o tempo, cada um é livre de estabelecer o seu limite.

A expressão limite pode suscitar seriedade e comprometimento, a conversa fora de fronteiras que nós mantivemos com o artista Lorokaki, evidenciou o seu empenho com a escrita livre, dar ao papel as lascas coloridas da sua consciência como afirma Natalie Goldberg na nota citada acima. 

Está conversa puramente rica em termos de referências, traços culturais e amostras de como se constrói um artista. Levou-nos a crer que Lorokaki está muito além de um simples autor...

Com palavras regionais como "Gororoba, grudje", o artista convidado para está conversa fala sobre as coisas que o rodeiam. Residente na Bahia-Salvador desde sempre, é autor do livro "De colher em colher", uma obra literária que reune setenta poemas que confrontam a vida e as suas diferentes questões numa linguagem que só é visível quando enxergada como "poesia".

Entrevista com o “camisa 10” da poesia


“Ninguém é igual a mim, mas chego a ser parecido com todo mundo”

Assim vivem os artistas dentro da arte.

É incrível como um ser que sorri por motivos diferentes da maioria, dança num apupú artístico quando pega a caneta, pode ver o mesmo por do sol que um civil (não artista) todos os dias, na verdade, do que são feito os artistas? Como olhar para poesia e pensar nela como a sinopse da vida? É aqui onde tudo começa...

Luanda, 29 de Abril, uma data que Maria Armando Artur e António José Gomes tiveram nos seus braços o jovem artista que inventaria o kyassambismo, “numa época não tão distante do pós independência”. 

Fernando Artur gomes, responde pelo nome de Fernando Kyassamba vulgo camisa 10 da poesia, é poeta e artista como tal. Altualmente residente no Cazenga na província de Luanda.

Kyambassa teve uma inserção no mundo artitistico litério razoável, considera a sua experiência moderada e durante a conversa que teve conosco deu nota positiva a sua trajectória artística. Mas como dizem por aí, as preliminares representam o sucesso da ação praticada antes do acto, então, seguimos adiante e tentamos entender Fernando dentro da sua arte.

SOU UM ARTISTA PROPRIAMENTE DITO, E FAÇO ARTE DE FORMA PROFISSIONAL


Preâmbulo

ROC: Quando é que o Fernando se assume como poeta?

KYASSAMBA: Eu me assumo como poeta já algum tempo, mas foi em 2013 pra 14 que começo a ver que a literatura vai muito além de esperar pelos eventos que dão primazia a arte poética.

Por exemplo: Poesias a céu aberto, artes ao vivo e muitas outras actividades. “Na época”. 

Comecei a ver a poesia com outros olhos, comecei a pisar em palcos que antes via de longe e a sentir o feedback do público. Passei a sentir que de facto eu já não era um mero artista, as responsabilidades tinham aumentado. 

Mas em virtude de algumas exigências acadêmicas tive de dar uma pausa.

ROC: como era a poesia de Fernando Kyassamba nesta época, nos conta sobre o amadurecimento da sua escrita?

A escrita não é só tirar as ideias da mente pra o papel

KYASSAMBA: Nos finais de 2013-14, a minha poética, não era propriamente a poética que eu chamo hoje.

Obviamente que estávamos a começar, à minha poética naquela altura era muito mais vaga, confesso, eu tinha alguns itens. E sempre gostei de fazer investigações, saber o que é um texto literário, o que é poesia, mas não é era bem propriamente a poética que eu queria alcançar. A fera poética que hoje chamo Kyassambismo teve de ser desenvolvida.

Então, de lá pra cá desenvolveu bastante tanto é que a partir de 2017 comecei a sentir a necessidade de publicar os meus textos, não só nas redes sociais, mas também em antologias e coletâneas nacionais e internacionais. 

ROC: Quais os elementos contribuíram para o amadurecimento da sua escrita, pra atingir o tão estimado kyassambismo?

KYASSAMBA: O que esteve na base do meu amadurecimento, foram elementos simples. Investigações e contacto direto com outros artistas e ter ousadia de sempre ler. 

Quando nos paramos para redigir um texto literário, um poema ou um conto é muito consequência também das nossas leituras, mas eu preso muito o meu contanto com a sociedade, são os mujimbos de daqui e acolá que nos levam a escrever textos dignos de realce.

ROC: Quais os são os escritores que o Fernando olha como influenciadores da sua escrita?

Kyassamba: Consequentemente quando lemos nos identificamos com um ou outro escritor. Eu sempre tive o cuidado de não me manter preso a uma linhagem só.

Claro que tenho alguns escritores como referências a citar: José Luís Mendonça, gosto do jeito que ele trabalha as palavras, gosto da poética de Agostinho Neto, ele trás consigo a nossa identidade, João Tala, José Eduardo Água Lusa. A muitos escritores que influenciaram de modo especial a cada modalidade ou cada gênero que faço.

ROC: Ao ter identificado esses escritores, nos sentimos obrigados a fazer a seguinte questão. O que caracteriza a nossa identidade dentro da escrita?

KYASSAMBA: Eu tenho dito assim de forma, mas minha que literatura é a arte de trabalhar as palavras, é a arte que tem a palavra como matéria prima. Só o jeito quando a gente escreve o jeito que a gente fala é uma identidade, logo, a gente pode passar isso quando formos redigir um texto.

O jeito que você cria os ambientes as historia todo pacote envolvido na desenvoltura do texto, vai muito trazer a nossa cultura.

ROC: Já agora, quer nos contar qual é percepção que tem sobre o que é cultura?

KYASSAMBA: Pra mim cultura é um conjunto de vivências. E elas são feitas constantemente e de forma natural.

ROC: E como é que o Fernando reflete a nossa cultura nas suas escritas?

KYASSAMBA: Trazer a nossa cultura vai muito mais além do uso de termos propriamente nossos.  Eu pelo menos procuro falar de coisas que tem haver conosco. A título de exemplo, eu escrevi um texto em virtude da dificuldade da escassez de água potável, neste texto eu não usei somente as palavras típicas do angolano, o ambiente e os personagens são detalhes que qualquer pessoa em contacto com o texto saberia que isto é angola.


Desvios

 ROC: Falou-nos sobre os escritores e autores que muito influenciaram a sua escrita, queremos saber do Fernando, como tem visto o dialogo cultural existente entre a velha guarda e nova geração de autores e escritores?

Kyassamba: Eu fico muito divido a dar a minha opinião sobre essa questão, falo na primeira pessoa que tem alguns escritores da velha guarda que têm esse carinho com os jovens. Eu sou um seguidor de José Luís Mendonça e João Tala, eu sou seguidor deles e eu vejo, sinto a preocupação deles ainda com os jovens.

Mas são dos poucos, Na minha opinião!

Por conta da atenção dos mas velhos não ser assim tão ferrenha tem se notado  muita deturpação naquilo que é poesia propriamente dito. Se bem que defendo que toda arte deve ser revolucionada, mas revolução numa arte ou numa determinada coisa não pode fazer com que se perca a essência.  

Síntese

Actividades como as do movimento Lev’Art, levaram Fernando a conhecer muitas pessoas influentes no mundo artístico literário, o que resultou num aprendizado rico e muitas das coisas que sabe sobre poesia hoje também aprendeu lá e com muita dessas pessoas.

O que também o ajudou quando foi convidado a iniciar certos núcleos e grupos artísticos.

Mas foi no Nomad’Art que o camisa 10 se constrói como artista. Junto de amigos e outros artistas periféricos, num espaço para debater a arte e experimentar a poesia como ferramenta de afirmação e mudança.

Não se falava de

Fernando Kyassamba

sem falar de Nomad’Art

Também devemos ressaltar a pessoa de Iadiro Barroso e zoe Kifembi. Organizadores do orgasmo literário um projecto em que Fernando Kyassamba tornou-se lenda, afirmou durante a nossa entrevista.

Ouve falar pela primenra sobre as competições de poesias faladas e performances (slams), em 2017. Um pouco mais curioso do que hoje, nesta altura o inventor do Kiassambismo armadilhou a mente e a caneta, mas não participou, apenas assistia aprendendo com quem sabia fazer. Ele relembra que houve uma vez que tinha sido convidado não como concorrente, mas para um momento livre do evento (open Mic), e isso o marcou. Mas hoje, já em 2025 Fernando conta com, mas aparições em concursos de poesia do que em slams.

Tem participação em muitas antologias e coletâneas, mas ele destaca dentre as lançadas, TRANSLUCIDO, lançada no formato digital, A GENTE QUE CONHEÇO e CANDONGUEIRO. Essas obras deram ao camisa 10 uma visibilidade muito grande, de modo que que as pessoas passaram a olhar pra ele não apenas como declamador. A nível internacional se destaca ENTRE VERSOS CONTOS E PROSAS.

Fernado sempre sonhou se estrear como autor único no mercado literário com uma obra do gênero poesia.


Sugestão do autor:

Obras que tem como leituras obrigatórias

ENTRE O CAOS E FLOR- foi organizada por Irene Guerra;

A CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO


#Esperamos que está leitura tenha servido de inspiração para si, a guerra se ganha lutando, então, seja você o heroi da tua própria vida. 

Siga as nossas páginas nas redes sociais e viva a arte Literatura!