As palavras na voz de quem escreveu - Lorokaki


Na nota "Primeiras impressões" de Natalie Goldberg, o elemento básico da prática de escrever é o exercício com o tempo, cada um é livre de estabelecer o seu limite.

A expressão limite pode suscitar seriedade e comprometimento, a conversa fora de fronteiras que nós mantivemos com o artista Lorokaki, evidenciou o seu empenho com a escrita livre, dar ao papel as lascas coloridas da sua consciência como afirma Natalie Goldberg na nota citada acima. 

Está conversa puramente rica em termos de referências, traços culturais e amostras de como se constrói um artista. Levou-nos a crer que Lorokaki está muito além de um simples autor...

Com palavras regionais como "Gororoba, grudje", o artista convidado para está conversa fala sobre as coisas que o rodeiam. Residente na Bahia-Salvador desde sempre, é autor do livro "De colher em colher", uma obra literária que reune setenta poemas que confrontam a vida e as suas diferentes questões numa linguagem que só é visível quando enxergada como "poesia".

Preâmbulo

Roc: Quando começa na escrita?

Lorokaki: Para escrever é preciso ler muito primeiro, pelo menos foi o que aconteceu comigo, depois que eu li muito eu me senti capaz de escrever alguma coisa.

"Um certo momento a inspiração apareceu e eu escrevi"

Não sabia se tinha algum valor, por isso depois que eu comecei a fazer as publicações o retorno que eu comecei a receber foi melhor do que eu estava esperando, e isso me animou e eu continuei a escrever.

Roc: Ainda tem memória do primeiro texto que escreveu?

Lorokaki: Sinceramente não. Mas a história começa com o semanário do poema... Poemas semanais que eu postava nas minhas redes sociais.

Roc: Qual foi a reação por parte dos familiares quando perceberam que estava a publicar textos na internet?

Lorokaki: Olha, eu sou casado, tenho dois filhos, nora e agora surgiu mas uma netinha.

Pra mim, os familiares são magnânimos, é uma leitura que como crítica, não vale... Por isso eu fiz questão de publicar e ter um retorno de pessoas descompromissadas comigo, sem a necessidade de ser magnânimo e fazer uma crítica real.

Roc: "É bom quando nós conseguimos ter esse olhar da nossa própria escrita. Agora, acredita que os textos que escreve são terapêuticos?

Lorokaki: Antes vou lhe contar uma história, inclusive eu coloquei no prefácio do livro. Tudo que eu escrevo, tenho a mania de mostrar para minha esposa, tenho a crítica inicial dela, tanto até que eu chamo ela de minha Gertrude Stein

Chamo ela assim porque é uma pessoa que gosta de literatura, e me ajuda bastante. 

E sim, é terapêutico pra mim. Escrever é uma terapia sem dúvida, quando eu escrevo, são duas das  hipóteses, ou eu me perco em alguma fantasia da qual eu não participei ou então é uma realidade crua que a gente vive no cotidiano.

Roc:Tem alguma preferência no modo como compõe os seus textos, e se de alguma forma isso influência no resultado da sua escrita?

Lorokaki: Claramente que não, vocês só acompanharam os meus textos através dessa forma de literatura, "poesia"... Eu também escrevo crônicas e romances, quando eu estou escrevendo poesia, ela é complementa inspiração, eu não penso em nada, geralmente as minhas poesias eu escrevo deves.

"De um sentada só, como falamos aqui no Brasil"

E aí! eu deixo aquele texto guardado em um dia ou dois, depois eu volto a ele e começo a lapidar. O esqueleto do texto, a espinha dorsal sai todo na mesma hora, então, eu não penso muito. Já romance e crônica é uma coisa diferente, praticamente não existe inspiração, eu penso, estruturo tudo e depois começo a escrever.

Roc: Cada um tem a sua forma de escrever mas, quando formos escrever devemos deixar a escrita sair, fluir! Sem se importar com o que escrevemos. 

O Lorokaki pode nos contar o que motivou a publicar um livro?

Lorokaki: Na verdade, a ideia inicial foi que ele servisse como um laboratório, até hoje, eu não estou seguro se escrevo bem, então, este livro teve esse propósito, de receber um retorno de quem fosse ler.

Realmente superou as minhas espectativas, mas eu resolvi fazer isso porque tenho um romance pronto, está faltando apenas a revisão ortográfica, e eu só queria lançar esse romance depois da resposta que voltasse pra mim do livro de poesia.

Desvios

O livro de colher em colher, além de reunir 70 poemas, ele faz um abordagem descritiva e analítica em que o autor tenta viajar sobre vários temas. Por exemplo, o texto "a cuia, o mendigo e o queijo", trás uma abrangência em termos de linguagens e se estende a nível poético sobre as coisas simples do dia a dia.

O poema exprime os discursos que vivem nos olhos de inúmeras pessoas a volta do Brasil, sobretudo moradores de rua... E como algumas datas específicas do ano denunciam essa desigualdade entre os sócios.

Retrocesso

Roc: Já viveu alguma situação na vida que reprimiu a sua escrita???

Lorokaki: Sim, a minha poesia não escorre mel. Não é uma coisa melosa, não existem musas. Eu escrevo sobre o cotidiano, então, ela se torna política, e ao se tornar política, ela pode incomodar uma ou outra pessoa. 

Então, sim. Em algum momento isso já me inibiu não de escrever mas sim de publicar.

"Eu ando sempre com papel e caneta, porque a inspiração pode vir a qualquer momento"

Roc: Quais foram as maiores dificuldades a quando da publicação do livro de colher em colher?

Lorokaki: Olha, eu costumo dizer que escrever não é o mas difícil pra mim, o mas difícil é publicar e fazer a divulgação do livro.

Esse livro eu divulguei, ou seja, foi uma auto publicação, publicado pelo clube de autores, e isso até um certo momento é bom, mas depois, para divulgar o livro eu tive muita dificuldade... O livro foi publicado de forma orgânica, através das redes sociais e o boca boca. 

Roc: Enquanto autor, qual é o público que quer alcançar com a sua escrita?

Lorokaki: Eu não me importo com faxa etária, quero alcançar aqueles que se identificam com a minha escrita, que gostem! Que o que eu escrevo sirva para alguma coisa na vida de alguém.

Quando escrevo, a minha preocupação não é alcançar a elite do país, quero alcançar o povo. A minha preocupação é política, social.

Roc: O que espera alcançar nos próximos anos? 

Lorokaki: Eh!! eu espero ter o reconhecimento de alguma editora, e poder trabalhar na publicação dos próximos livros que eu tenho. Pois a minha escrita não pará. 

Roc: Dentro de casa, sabemos que Lorokaki também é pai e avó. Como usa o gosto que tem pela literatura para incentivar ou influênciar significativamente a sua família?

Lorokaki: Eu acho que isso já acontece algum tempo. Eu tenho muitos livros aqui a solta, eu e minha esposa desde pequeno nos preocupamos em colocar a disposição deles a leitura. 

Roc: Como é que lida com as criticas e bloqueos criativos?

Lorokaki: A princípio eu ficava muito preocupado com isso, seguindo o conselho de um filho meu, comecei a não ligar e parei de prestar atenção... e surtiu resultados muito bons.

"Por meses eu fico sem escrever nenhum poema, e no outro dia já escrevo quatro. Então comecei a não me preocupar muito com isso"

 

Roc: Quai são as tuas maiores referncias literárias?

Lorokaki: Netsa questão talvez eu seria injusto, porque posso esquecer de citar alguém mas, no que diz respeito a poesia, eu gosto muito de Gregório de Matos, Baudelaire, Williams Henley, por suas escritas de resistências e protestos.

Com relação a romances, Jorge Amado , por representar a Bahia!

Sintese

Amamos conhecer, saber e olhar com firmeza à arte e as palavras do artista Lorokaki.

A Revista Óh Caxito mergulhou numa conversa inspiradora com o autor da obra “De Colher em Colher”. Foi uma entrevista fluida e cheia de energia criativa, exploramos suas influências literárias e o seu olhar aguçado sobre o mundo.

Apaixonado pela escrita provocadora de Lima Barreto — marcada pelo inconformismo político e social — o autor partilhou reflexões profundas sobre literatura, resistência e o poder transformador da palavra. Uma troca intensa, enriquecida por referências culturais que atravessam fronteiras e nos fazem repensar o nosso lugar na história.

Óh Caxito segue na missão de celebrar vozes que desafiam o óbvio e ampliam horizontes. E esta entrevista é mais uma prova viva disso.

#Até mas testemunhas!

Revista culturalmente rica-ÓhCaxito

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